quinta-feira, 17 de abril de 2014

     SURDOCEGUEIRA E DEFICIÊNCIA MÚLTIPLA
O CONCEITO DE SURDOCEGUEIRA
Surdocegueira é uma condição que apresenta outras dificuldades além daquelas causadas pela cegueira e pela surdez. O termo hifenizado indica uma condição que somaria as dificuldades da surdez e da cegueira. A palavra sem hífen indicaria uma diferença, uma condição única e o impacto da perda dupla é multiplicativo e não aditivo.
 Para McInnes (1999), a premissa básica é que a surdocegueira é uma deficiência única que requer uma abordagem específica para favorecer a pessoa com surdocegueira e um sistema para dar este suporte. O referido autor subdivide as pessoas com surdocegueira em quatro categorias:
·         Indivíduos que eram cegos e se tornaram surdos;
·         Indivíduos que eram surdos e se tornaram cegos;
·         Indivíduos que se tornaram surdocegos;
·          Indivíduos que nasceram ou adquiriram surdocegueira precocemente, ou seja, não tiveram a oportunidade de desenvolver linguagem, habilidades comunicativas ou cognitivas nem base conceitual sobre a qual possam construir uma compreensão de mundo.
Classificação de acordo com a: intensidade das perdas
·         Existência de um resíduo auditivo e de um resíduo visual;
·         Surdez total e resídua visual;
·         Resíduo auditivo e cegueira total;
·         Surdez e cegueira totais.
Tipos
·         Cegueira congênita e surdez adquirida;
·         Cegueira e surdez adquiridas;
·         Surdez congênita e surdez adquirida;
·         Baixa visão com surdez congênita ou adquirida;
·         Cegueira e surdez congênitas
As causas da surdocegueira podem ser acidentes graves; a condição genética da síndrome de Usher (as manifestações clínicas desta síndrome incluem a surdez, que se manifesta logo no início da vida e a perda visual que ocorre, geralmente, mais tarde) e surdocegueira congênita resultante de doenças como a rubéola ou de nascimentos prematuros.
Classificação de acordo com a época de aquisição:
 Surdocego pré-linguístico: classifica-se como aquele que apresenta a surdocegueira congênita (no período gestacional), após o nascimento, mas antes da aquisição da linguagem ou surdez antes da aquisição da linguagem e posterior cegueira.
Surdocego pós-linguístico: classifica-se assim, aquele que adquiriu surdocegueira após a aquisição da linguagem ou cegos com posterior surdez.
Comunicação da Surdocegueira
Os surdocegos possuem diversas formas para se comunicar com as outras pessoas. A LIBRAS, Língua Brasileira de Sinais, desenvolvida para a educação dos portadores de deficiência auditiva, pode ser adaptada aos surdocegos utilizando-se o tato. Colocando a mão sobre a boca e o pescoço de um intérprete, o portador de surdocegueira pode sentir a vibração de sua voz e entender o que está sendo dito, esse método de comunicação é chamado de Tadoma. Também é possível para o surdocego escrever na mão de seu intérprete utilizando um alfabeto manual ou redigir suas mensagens em sistema Braille (língua formada de pontos em relevo criada para a comunicação das pessoas cegas). Existe ainda o alfabeto moon, que substitui as letras por desenhos em relevo e o sistema pictográfico, que usa símbolos e figuras para designar os objetos e ações.
 Alfabeto manual - Consiste em fazer, com a mão, um sistema de signos sobre a palma do interlocutor. São variados os códigos adotados nesse procedimento; a forma mais usual é aquela onde cada letra é representada pelas diferentes posições dos dedos e da mão.
 Língua de Sinais - Consiste em uma forma de comunicação construída no espaço através de configurações das mãos em movimentos diferentes e pontos de contato no corpo.
 Tadoma - Método de linguagem receptiva onde a pessoa surda-cega, através do tato, decodifica a fala do seu interlocutor. Consiste em colocar a mão no rosto do locutor de tal forma que o polegar toque, suavemente, seu lábio inferior e os outros dedos pressionem, levemente, as cordas vocais. Este procedimento possibilita a interpretação da emissão dos sons através do movimento dos lábios e da vibração das cordas vocais.
 Sistema Braille - Sistema de escrita e leitura tátil criado por Louis Braille, em 1824. Ainda aluno da "Instituition des Jeunes Aveugles", em Paris, o jovem cego Louis inspirado na "grafia sonora", idealizada pelo Capitão de Artilharia Carlos Barbier de la Serre, inventou o Sistema, ainda hoje utilizado, com pequenas modificações, em todo o mundo. Consiste no arranjo de seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas de três pontos. As diferentes posições desses seis pontos permitem a representação de todas as letras do alfabeto, dos sinais de pontuação, dos símbolos da matemática, da música e outros.
PESSOA COM DEFICIÊNCIA MÚLTIPLA (DMU)
São consideradas pessoas com deficiência múltipla aquelas que “têm mais de uma deficiência associada”. “É uma condição heterogênea que identifica diferentes grupos de pessoas, revelando associações diversas de deficiências que afetam, mais ou menos intensamente, o funcionamento individual e o relacionamento social”. (MEC/SEESP, 2002).
Comunicação
Todas as interações de comunicação e atividades de aprendizagem devem respeitar a individualidade e a dignidade de cada aluno com deficiência múltipla. Isto se refere a pessoas que possuem como característica a necessidade de ter alguém que possa mediar seu contato com o meio. Assim, ocorrerá o estabelecimento de códigos comunicativos entre o deficiente múltiplo e o receptor. Esse mediador terá a responsabilidade de ampliar o conhecimento do mundo ao redor dessa pessoa, visando a lhe proporcionar autonomia e independência.
Posicionamento
É indispensável uma boa adequação postural. Trata -se de colocar o aluno sentado na cadeira de rodas ou em uma cadeira comum ou, ainda, deitado de maneira confortável em sala de aula para que possa fazer uso de gestos ou movimentos com os quais tenham a intenção de comunicar-se e desfrutar das atividades propostas. Não se pode esquecer, por exemplo, que muitas vezes o campo visual do aluno ou mesmo sua acuidade visual poderão influenciar os movimentos posturais de sua cabeça, pois irá tentar buscar o melhor ângulo  de visão ,aproveitando seu resíduo visual, inclinando-a ou levantando-a. Esses movimentos poderão sugerir que a pessoas não está na melhor posição. Isso, porém, é um engano, pois na verdade ela pode estar adequando sua postura.
Necessidades Básicas das Pessoas com Surdocegueira e com Deficiência Múltipla
As pessoas com surdocegueira e com deficiência múltipla, que não apresentam graves problemas motores, precisam aprender a usar as duas mãos. Isso para servir como tentativa de minorar as eventuais estereotipias motoras e pela necessidade do uso de ambas para o desenvolvimento de um sistema estruturado de comunicação.
 Mesmo quando a deficiência predominante não é na área intelectual, todo trabalho com o aluno com deficiência múltipla e com surdocegueira implica em constante interação com o meio ambiente. Este processo interacional é prejudicado quando as informações sensoriais e a organização do esquema corporal são deficitárias. Prever a estimulação e a organização desses meios de interação com o mundo deve fazer parte do Plano de AEE.
 Os espaços escolares e sua organização precisam refletir a vontade de incluir, não só com construção de rampas, banheiros acessíveis, sinalização e alargamento de corredores, mas com posturas pedagógicas que incentivem a livre circulação de todos os alunos e, especialmente, das pessoas com deficiência.
·         Uma escova de dente qualquer (que não é a mesma que a pessoa com surdocegueira utiliza para escovar os dentes) permite simbolizar aquela que é usada para fazer a higiene bucal, a esta ação chamamos de objeto de referência desnaturalizado.
·         A criança precisa internalizar e perceber que se pode dar nome a tudo, tornando sua comunicação mais simbólica
Caixas de Antecipação
 As caixas de antecipação devem ser utilizadas com crianças que ainda não têm nenhum sistema formal de comunicação. Ela permite conhecer os primeiros objetos de referência que anteciparão as atividades e o conhecimento das primeiras palavras.
 Calendários                                                                                                                                         Os calendários são instrumentos que favorecem o desenvolvimento da noção de tempo e que ajudam os alunos a estabelecer e compreender rotinas. Os calendários também são úteis no desenvolvimento da comunicação, no ensino de conceitos temporais abstratos e na ampliação do vocabulário, conforme Maia et AL (2008).

Tipos de Calendários
·         Sistema de calendário confeccionado com um varal móvel preso no móvel por ventosas os objetos de referência são pendurados por um pregador plástico que tem um movimento acessível para o aluno com problema motor.
·         Objetos: colher e um saco plástico contendo pasta e escova de dente.
·        A disposição deste calendário favorece a estimulação viso motora do aluno (Fonte: Ahimsa, 2003)

Deslocamento em Trajetos Curtos e Longos, em Ambiente Escolar e na Sala de Recursos Multifuncionais.
·         Identifique-se para o aluno, mostrando seu objeto de referência, aproximando-se dele e permitindo que perceba, se você tem um perfume familiar, tocando-o levemente.
·         Tenha atitude de comando clara, precisa e tranquila ao ajudá-lo na sua rota.
·         Alerte o aluno sobre situações que possam apresentar riscos, causar constrangimentos e contratempos.
·         Dê pistas da sua aproximação e do seu afastamento em relação ao aluno.
·         Utilize a técnica do guia vidente quando necessário.
·         Sinalize a rota para que ele tenha autonomia e curiosidade para se desloca
Adequações Visuais
ILUMINAÇÃO
·         Os alunos com Surdocegueira e com deficiência múltipla que tem baixa visão precisam do máximo de contraste possível entre os materiais que lê e o ambiente. Existem, no entanto, outras condições que exigem uma quantidade menor de luz ambiente (como por exemplo; o albinismo - falta de pigmentação nos olhos e que pode afetar a visão no que diz respeito à luz - e a sensibilidade). A luz solar pode ser utilizada. Ela funciona bem para alunos com baixa visão, ao contrário da luz fluorescente, que é a menos apropriada, porém ela é a mais comum em salas de aula. Recomenda-se o uso das lâmpadas incandescentes.
POSIÇÃO E DISTÂNCIA
A avaliação da visão residual do aluno demonstra a que distância e em que posição ele consegue enxergar melhor os objetos e as outras pessoas. Além disso, potencializa a aprendizagem, se o professor se certificar de que os materiais e os alunos estejam numa posição favorável, eficiente e confortável. Diferente de um aluno com surdocegueira que devido à síndrome de Usher, em geral, possui boa visão central, eles devem se sentar do meio para o fundo da sala, nas fileiras centrais, pois nessa posição irão virar-se menos em direção aos colegas para receber alguma informação e conseguirão ver bem o professor
O USO DO QUADRO NEGRO OU LOUSA
 A maioria dos professores usa a lousa preta, ou verde ou a branca em suas aulas, o que pode fazer com que os alunos com baixa visão tenham prejudicada a visibilidade das informações escritas. Isso caso não estejam sentados em lugares estratégicos e a escrita do professor não siga determinadas regras, como as sugeridas por Hicks & Hicks (1983). Este autor afirma e recomenda que, para ter uma leitura fácil, deve se utilizar letras maiúsculas, tendo entre seis a oito centímetros de altura. As lousas devem ser mantidas limpas para maximizar o contraste. Segundo PrickettPrickett (1991), a lousa negra com o giz amarelo é a melhor, pois oferece um melhor contraste para a maioria dos alunos com baixa visão.
MOVIMENTAÇÃO DO PROFESSOR
O professor geralmente anda por toda a sala, o que muitas vezes, para os alunos com surdocegueira e/ ou com deficiência múltipla torna-se um desafio, pois eles não conseguem seguir as orientações tanto visuais quanto auditivas que o professor está dando para todos. É necessário lembrar-se dos locais que produzem reflexos e tentar evitá-los.  O professor deve verificar se o guia-intérprete ou instrutor mediador do aluno com surdocegueira ou com deficiência múltipla consegue acompanhar o ritmo da comunicação principalmente se esta for rápida. Ele pode lembra os alunos de falarem um de cada vez, colaborando com a participação do colega que não acompanha espontaneamente a discussão visual nem auditivamente.
MATERIAL DIDÁTICO: CARACTERÍSTICAS VISUAIS
Os materiais didáticos em geral são visuais, auditivos ou uma combinação dos dois: figuras, fitas de vídeo e áudio, filmes, CD, materiais escritos e outros. Segundo Lowell e Quinsland (1973), ao trabalhar com alunos com surdocegueira, verificou que eles preferiam materiais impressos e manuseáveis; informação escrita na lousa; fitas de vídeo e slides coloridos; transparências coloridas e em preto e branco. Os alunos preferiram os materiais que podiam usar de perto, elegendo por último os materiais que podem ficar mais distantes e que requerem o uso da visão.
 ALTERAÇÕES NO TAMANHO
Figuras pequenas ou grandes demais ,dependendo das necessidades visuais do aluno, são difíceis de serem identificadas, tornando-se, muitas vezes, necessário que sejam levadas para mais próximo ou mais longe do seu campo visual. Portanto, não é muito indicado utilizar figuras que sejam de difícil interpretação visual e/ou com muitos detalhes.
ALTERAÇÕES NA COMPLEXIDADE
Figuras com muitos detalhes e com movimento(imagens de computador, fitas etc.) são mais difíceis de serem identificadas. Para alunos com baixa visão, é preferível que sejam simplificadas  Observação: quando os filmes não são possíveis de serem adequados, é importante fazer a transcrição fiel do que ocorre nas imagens (descrição visual) ou, se for legendado, passar as legendas pausadamente.  Para o aluno com surdocegueira é preciso garantir, através do guia-intérprete ou do professor, que ele tenha todas as informações das ilustrações, slides, filmes etc. No caso dos alunos com deficiência múltipla com comprometimento motor ou intelectual, a mesma observação é pertinente, principalmente com relação ao tempo de processamento da informação.
MATERIAIS ESCRITOS
As adequações dos materiais escritos são feita no sistema Braille, os quais devem ser ampliados. Alunos com surdocegueira e com deficiência múltipla que são cegos precisarão do sistema Braille para acompanhar as aulas. Pode-se transcrever os materiais no sistema Braille.
OUTROS RECURSOS PARA ADEQUAÇÕES VISUAIS
Alguns alunos com baixa visão funcional são beneficiados por adequações feitas aos materiais impressos, à lousa, aos relógios, entre outros. Podem ser feitas modificações sem recomendações específicas, por meio de uma avaliação funcional da visão, que é:  A observação do desempenho visual do aluno em todas as atividades diárias, desde como se orienta e se locomove, se alimenta, brinca, até como usa a visão para realizar tarefas escolares ou práticas. A avaliação funcional da visão revela dados qualitativos de observação informal sobre: o nível de desenvolvimento visual do aluno, o uso funcional da visão residual para as atividades educacionais, da vida diária, orientação, mobilidade e trabalho, a necessidade de adaptação à luz e aos contrastes, adaptação de recursos óticos, não-ópticos e equipamentos de tecnologia avançada (BRUNO, 1997, p.8-)
POSICIONAMENTO
Um aluno com surdocegueira ou com deficiência múltipla que tenha resíduo auditivo deve sentar-se em um lugar que lhe proporcione acesso às fontes de som mais importantes. Em se tratando de um aluno com deficiência múltipla com comprometimento motor(Paralisia Cerebral), seu bom posicionamento será fundamental para alcançar melhores resultados na aprendizagem.
 GUIAS-INTÉRPRETES, INSTRUTORES MEDIADORES E MONITORES.
Geralmente os alunos com surdocegueira ou com deficiência múltipla recebem dos ambientes escolares comuns as informações necessárias, principalmente auditivas, com a assistência de outra pessoa. A maioria precisa de ajuda para obter as informações completas para compreender a comunicação e participação efetivamente das ,ou seja, receber as informações no seu sistema de comunicação. Para esses alunos, são necessários os serviços de: guia-intérprete e de instrutor-mediador, para guiar, interpretar e mediar a comunicação. Os monitores podem apoiar em atividades extras salas.
TECNOLOGIA ASSISTIVA
·         Independência
·         Qualidade de Vida e inclusão social
·         Ampliar a comunicação
·         Ampliar a mobilidade
·         Ter controle do ambiente
·         Dar apoio as habilidades para o trabalho
SISTEMAS LOOPS
Sistema de radio frequência que serve para amplificar o som para  a pessoa com deficiência auditiva ou surdez. Pode ser instalado na sala de aula, em auditórios etc.
TELEFONE PARA PESSOAS COM SURDEZ
Usado com fone do telefone fixo. Também existe com impressora e mostrador visual ampliado, tendo o teclado igual ao de um computador.
ORGANIZAÇÃO DA SALA DE AULA
As adequações físicas feitas mais frequentemente são:
·         Marcação ou organização de cantos temáticos na sala de aula;
·         Cortinas que abafam sons externos; e
·         Telhas, matérias de construção, divisores de madeira ou painéis de parede que abafam sons.
            
Referência: 
BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; MAIA, Shirley R. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar - Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla. – Coletânea UFC-MEC/2010. • IKONOMIDIS, Vula Maria Apostila sobre “Deficiência Múltipla Sensorial”,2010 sem publicar .